Capítulo 04
A Senhorita Malvada Vê a Original
Eu continuava abrindo e fechando as gavetas das minhas memórias da vida passada.
Talvez houvesse alguma lembrança útil escondida em algum lugar.
No silêncio, ao fechar os olhos, uma voz nostálgica ecoou em minha mente.
"Existe uma garota tão cruel que você precisa maximizar TODOS os atributos para conquistá-la..."
Era quase um gemido de sofrimento.
O dono daquela voz...
Ah, claro.
Um colega de classe completamente obcecado por videogames.
O mesmo sujeito que acabou se declarando para mim e recebeu um fora porque, segundo eu, "os parâmetros dele eram insuficientes".
O jogo de que ele falava também era um simulador de romance.
Mas não um otome game.
Era um galge, como ele costumava dizer.
Agora que penso nisso, ele vivia explicando apaixonadamente aquele jogo enquanto eu o massacrava em jogos de luta.
Existiam atributos como aparência, inteligência e vigor físico.
Você escolhia uma garota de quem gostava, aumentava os parâmetros necessários e...
Superava ou eliminava os rivais.
Ah, sim.
Foi justamente nessa parte da explicação que eu alcancei minha vigésima vitória consecutiva e ele mudou para um jogo de festa sem me consultar.
Não sei se o jogo que originou este mundo possui algum sistema semelhante de parâmetros.
Mas talvez eu ocupe justamente a posição da rival destinada a ser superada pela heroína.
Aquela que é derrotada.
E, depois da derrota...
O que me espera?
— Cima, cima, baixo, baixo, esquerda, direita, esquerda, direita, B, A...
— Bom dia, senhorita. O café da manhã está pronto.
Ah.
O comando de bom dia.
Quando me sentei à mesa do café da manhã, encontrei mais uma vez o sorriso radiante de minha mãe.
Embora ela estivesse assistindo a tudo como uma simples espectadora, continuava sendo minha mãe.
Se o futuro que me aguardasse após ser derrotada fosse realmente terrível...
Ela estaria sorrindo assim?
Foi ela quem me incentivou a me tornar uma senhorita malvada.
Se ainda me enxergava como filha, talvez eu não precisasse me preocupar tanto.
Mas se ela tivesse se esquecido disso e se tornado apenas uma observadora...
Então, acontecesse o que acontecesse, eu teria de proteger a mim mesma.
— Mamãe, hoje vou estudar com o Lewe depois das aulas. Voltarei um pouco mais tarde.
— Ora, é mesmo?
Entendido.
Fico tão feliz em ver você e Lewe se dando tão bem.
Ela sorriu de orelha a orelha.
Mas, segundo a história do jogo que ela descrevia, eu e a heroína acabaríamos disputando Lewe.
E, naturalmente, eu perderia.
Quanto mais eu pensava nisso, menos confiável minha mãe parecia.
De qualquer forma, ela estava ansiosa para assistir à desilusão amorosa da própria filha.
Definitivamente não era alguém em quem eu pudesse confiar.
— Então estou saindo.
— Vá com cuidado.
— Servo, pode embrulhar o resto dos sanduíches? Vou comer na carruagem.
Lors.
Naturalmente, ele presumiu que eu era quem iria comê-los e começou a embrulhá-los rapidamente.
— Ai...
Assim que a carruagem começou a andar, enfiei um sanduíche na boca de Lors e suspirei.
Surpreso pelo ataque repentino, ele arregalou os olhos.
— Você pulou o café da manhã de novo, não foi?
Pode comer.
— ...Mas...
— É uma ordem.
Dar destino aos restos da refeição da sua senhora também faz parte do trabalho de um servo, não?
Observando minha mãe, cheguei a uma conclusão.
Provavelmente Lors não era um dos personagens conquistáveis.
Ele sempre fora bonito, mas conforme crescia ficava cada vez mais atraente.
Cheguei a suspeitar que talvez fosse um dos rapazes do jogo.
Mas minha mãe sequer falava com ele.
Na verdade, parecia nem enxergá-lo.
Enquanto isso, derretia-se toda vez que Lewe aparecia.
Portanto, para ela, Lors era apenas um figurante.
Pelo visto, ter um rosto bonito não era suficiente para se tornar um alvo romântico.
Observei-o engolir o sanduíche enquanto refletia sobre isso.
— Ah, é mesmo. Servo...
Hoje não me espere na entrada.
Fique na sala dos acompanhantes.
— Como?
— Prometi jogar jogos de tabuleiro com Lewe.
Você também vai participar.
Então eu mesma vou buscá-lo.
— Com todo o respeito, senhorita...
Uma senhorita malvada costuma ir pessoalmente buscar o próprio servo?
— Claro que sim.
Ela invade a sala dos criados e sequestra o servo.
Veja só como sou malvada.
É praticamente um sequestro.
Sem problemas.
Sou uma senhorita malvada.
Logo, sequestro é perfeitamente aceitável.
Quando o sinal tocou, o professor entrou na sala acompanhado por alguns alunos carregando enormes pilhas de livros.
Finalmente.
Os livros de magia haviam chegado.
Assim que meu nome foi chamado, fui até a mesa do professor pegar os meus.
Ao voltar para o lugar, comecei imediatamente minha investigação.
Precisava descobrir quem havia escolhido Magia Ofensiva e Linguística das Maldições.
Havia vários rapazes em Magia Ofensiva.
Talvez eu conseguisse copiar os livros de alguém.
O verdadeiro problema era Linguística das Maldições.
Ninguém sabia exatamente para que aquela matéria servia.
E o nome era suspeito demais.
Pouquíssimos alunos a escolhiam.
Eu estava sinceramente preocupada que não houvesse sequer um aluno da turma matriculado nela.
Mas então encontrei alguém recebendo o livro.
Seu rosto estava escondido por uma longa franja.
Pelas roupas, parecia ser um plebeu.
Depois de observar toda a turma, confirmei:
Ele era o único aluno daquela classe que havia escolhido Linguística das Maldições.
Precisava descobrir seu nome imediatamente.
E encontrar uma maneira natural de me aproximar dele.
Tomara que um título de condessa não o intimidasse.
— Agora faremos a medição de poder mágico.
O professor distribuiu placas cristalinas transparentes.
Ao colocar a mão sobre elas, a superfície assumia uma cor.
Azul indicava pouco poder mágico.
Vermelho indicava muito.
A média costumava ficar em torno do amarelo.
Era como uma câmera térmica.
— Uau! Como esperado da senhorita Elena!
A senhorita Parsley bateu palmas ao ver o laranja intenso que apareceu na minha placa.
Então era isso que os seguidores faziam.
Serviam como torcida organizada.
Por um momento quase exibi um sorriso triunfante.
Mas então vi que Lewe havia obtido uma tonalidade ainda mais intensa.
Meu momento de glória morreu instantaneamente.
— Nada mal, Lewe.
— Você também, Elena.
Minha mãe dizia que ele poderia se tornar meu futuro interesse amoroso.
Mas naquele instante eu o via apenas como um rival digno.
Enquanto isso, o único aluno de Linguística das Maldições se aproximou para realizar sua medição.
Se ele obtivesse um resultado impressionante, seria mais fácil puxar conversa.
Quem sabe até ficássemos amigos.
Então eu poderia pedir para ver seu livro...
Nossa.
Que amarelo bonito.
O resultado dele era a mais pura definição de média.
Nem acima.
Nem abaixo.
Exatamente no centro.
Tão absurdamente comum que eu nem sabia como iniciar uma conversa.
Melhor deixar para outra oportunidade.
Quando as aulas terminaram, levantei-me para buscar Lors.
Eu já havia avisado Lewe.
Mesmo assim, resolvi me despedir.
Mas, antes que pudesse falar, uma garota apareceu e se colocou entre nós.
Seu rosto emburrado deixava claro que ela não gostava de mim.
— Elena.
Ah.
Ela não me chamou de "Senhorita Elena".
Interessante.
— Sim?
— Posso dizer uma coisa?
Afinal, como o diretor disse, podemos interagir independentemente da posição social, não é?
Entendi.
Ela estava basicamente dizendo:
"Não vou usar honoríficos nem formalidades. Algum problema?"
— Claro.
Pode falar.
— Não acha inadequado usar sua posição social para monopolizar Lorde Lewe?
...
Você chama a mim de Elena.
Mas chama ele de Lorde Lewe?
O comediante que vive dentro da minha cabeça escorregou e caiu da escada.
— ...Pelo visto é isso que pensam de nós, Lewe.
Chamei-o.
Ele já estava atrás da garota.
— Hã...?
Um silêncio constrangedor pairou sobre todos.
Aproveitei a oportunidade.
— Bem, estou indo.
Tenho assuntos importantes.
Com Lors.
Corri para a sala dos acompanhantes.
Precisava relatar imediatamente.
Assim que encontrei Lors, explodi:
— Ouça, servo!
Eu vi uma de verdade!
— ...O quê?
— Vamos andando para a sala de jogos enquanto explico.
Aquilo.
Aquilo era uma verdadeira senhorita malvada.
Era exatamente assim que funcionava.
Disputar homens bonitos.
Era esse o meu papel.
Que experiência educativa maravilhosa.
Tenho certeza de que amanhã aprenderei ainda mais.
Quando a heroína finalmente aparecer, estarei preparada para praticar maldades com conhecimento de causa.
Fufufu...
Exibindo meu sorriso maligno, coloquei a mão na maçaneta da sala de jogos.
Nesse momento, uma voz surgiu atrás de mim.
— Como pôde fazer isso comigo, Elena...?
Era Lewe.
Ele havia escapado das garotas e agora me encarava com ressentimento.
— Disseram que eu estava monopolizando você.
Então obedeci.
Homens populares realmente têm uma vida difícil, não é, Lewe?
Se quer culpar alguém, culpe seus bons genes e seu rosto bonito.
— Peço desculpas pelo comportamento da minha senhorita, Lorde Lewe.
— Não... tudo bem...
Quer dizer...
Nem tão bem assim...!
Anterior《 ✮ 》Menú inicial 《 ✮ 》
Nenhum comentário:
Postar um comentário