Capítulo 05
A Vilã Recusa o Destino
O marquês devolveu a joia azul às minhas mãos e permaneceu alguns instantes observando meu rosto.
— Alteza... se, por acaso, tudo o que Alicia disse for verdade... a senhora... não, os senhores realmente ficariam ao lado dela?
— Ficaria.
— Lútia...
Ao ouvir minha resposta, o príncipe Roy franziu as sobrancelhas, claramente preocupado.
Mas, se os acontecimentos que Alicia havia descrito realmente estavam destinados a acontecer, seria um desperdício forçá-la a se tornar a noiva de Lyle contra sua vontade.
O verdadeiro problema era outra questão: sua quantidade de mana.
A avaliação oficial de mana aconteceria dali a dois anos, quando ela completasse dez anos de idade e fosse examinada no templo. Caso fosse considerada alguém com grande potencial mágico, seu nome inevitavelmente surgiria entre as candidatas a noiva de Lyle.
— Marquês... ainda não sabem exatamente quanta mana Alicia possui, certo?
— Na verdade, sabemos. Neste momento, ela já ultrapassou o nível doze.
— Doze...? Isso é bastante. Eu tenho dezoito atualmente.
Meu irmão, três anos mais velho, arregalou os olhos surpreso. Como sua avaliação já havia sido concluída no ano anterior, ele entendia perfeitamente o significado daquele número.
Pessoas dotadas de mana costumavam ver sua capacidade aumentar conforme cresciam.
Em outras palavras, dali a dois anos, Alicia provavelmente possuiria ainda mais mana.
Claro, havia casos em que esse crescimento estagnava, portanto não era possível afirmar com absoluta certeza. Ainda assim, para uma jovem dama de uma família de marqueses, possuir doze unidades de mana já era mais do que suficiente para ser considerada uma candidata adequada a esposa da família real.
Para efeito de comparação, a população comum costumava possuir entre três e cinco unidades de mana. Entre os nobres, a média variava de sete a dez. Magos profissionais normalmente possuíam doze ou mais.
A família real, naturalmente, superava a média da nobreza, embora esses números raramente fossem divulgados.
Os dezoito pontos de Roy já eram impressionantes, mas eu tinha certeza de que meu pai possuía uma quantidade ainda maior.
— Alicia, lamento informar... mas você certamente será considerada uma candidata a noiva de Lyle.
— O quêêê?! M-Mas por quê?!
— Porque sua quantidade de mana é alta. Além disso, Lyle é filho da rainha consorte.
— É verdade — concordou Roy. — Infelizmente, não temos meios para impedir isso.
Era impossível imaginar nosso pai recusando um pedido da rainha consorte.
Uma jovem bela, filha de um marquês e dotada de grande poder mágico? Ela era praticamente a candidata perfeita.
— Mas sabe... acho que existe uma forma de evitar sua condenação.
— Sério?!
Alicia se inclinou para frente imediatamente.
Olhei para ela e respondi:
— Não faça nada.
Silêncio.
A solução era surpreendentemente simples.
A garota tremia só de ouvir falar de Lyle. As chances de ela se apaixonar por ele no futuro eram praticamente nulas.
Então, mesmo que se tornasse sua noiva, bastava permanecer em silêncio.
E, caso Lyle se apaixonasse por outra pessoa, ela não precisaria interferir.
— M-Mas... isso funciona mesmo?
— Alicia, você deseja se casar com Lyle e se tornar a futura rainha?
A jovem balançou a cabeça com tanta força que quase parecia que ela iria deslocá-la.
Realmente, era uma garota sem grandes ambições.
Ela poderia simplesmente se tornar rainha e aceitar que a filha de um barão ocupasse a posição de consorte secundária.
Mas, no fim das contas, era apenas uma diferença de prioridades: algumas pessoas desejavam poder; outras, uma vida comum.
— Então não faça nada. Apenas ignore a situação. Mesmo que alguém venha acusá-la de alguma coisa, diga que os estudos para se tornar rainha são extremamente exigentes e que você não tem tempo para brincadeiras.
— Mas... e se disserem que fui eu quem fez algo?
— Exija provas. E apresente suas próprias evidências para se defender.
— Alteza... a senhora tem certeza de que tem apenas oito anos?
Alicia me observava com um olhar cheio de suspeitas.
Mas eu era exatamente o que aparentava ser: uma menina de oito anos.
Diferente dela, eu não possuía lembranças de uma vida passada.
Apenas gostava de ler.
Muito.
Mesmo possuindo direito à sucessão, eu continuava sendo apenas filha de uma consorte sem grande influência política.
As expectativas depositadas em mim jamais se comparariam às direcionadas a Lyle, filho da rainha e herdeiro de uma poderosa facção.
Desde que eu aprendesse etiqueta, dança e os estudos básicos, praticamente me deixavam em paz.
Por isso eu lia.
Na biblioteca do palácio havia livros dos mais variados assuntos. Eu até mesmo solicitava obras populares vendidas entre o povo, algumas consideradas pouco refinadas pela nobreza.
Quando expliquei que gostava de conhecer diferentes perspectivas, os bibliotecários ficaram tão felizes que passaram a reunir ainda mais livros para mim.
— Alicia... se tudo o que você contou for verdade, talvez eu seja apenas uma figurante nesta história. Uma princesa sem grande importância.
Fiz uma breve pausa.
— Mas continuo sendo eu mesma. Não me importo de ser uma personagem secundária. Ainda assim, quero salvar as vidas que puder.
Mesmo que ninguém me desse atenção.
Mesmo que ninguém depositasse esperanças em mim.
Eu continuava sendo uma princesa com direito ao trono.
Queria agir de forma digna desse título.
— Eu... eu definitivamente não quero me casar com o príncipe Lyle.
Sua voz ecoou pelo salão.
— Por isso vou me tornar amiga da princesa! Pelo que me lembro, nós quase nunca conversávamos no futuro que eu conheço. Mas se queremos mudar o destino, precisamos agir!
— Alicia...
O marquês observou a filha com preocupação.
Em resposta à determinação dela, estendi minha mão.
Ela a segurou com delicadeza.
— Alicia Farman, filha da Casa Farman. A partir de hoje, seja minha amiga. E vamos enfrentar juntas o futuro que tanto a assusta.
— Sim!
Naquele instante, uma aliança havia nascido.
As mãos de Roy e do marquês pousaram sobre as nossas.
— Eu também vou ajudar — declarou Roy. — Quero salvar meu pai tanto quanto vocês.
— E eu farei tudo ao meu alcance — acrescentou o marquês. — Cuide bem da minha filha.
— Claro que sim! Agora vamos pensar numa maneira de salvar meu pai.
Foi então que o marquês fez uma sugestão inesperada.
— Alteza, a senhora possui alguma pedra preciosa menor do que essa joia azul?
— Menor...? Talvez isto sirva.
Retirei a presilha que prendia meus cabelos e a mostrei.
O marquês examinou o acessório atentamente e assentiu.
— Talvez... isto funcione.
— Mas pedras mágicas usadas para magia defensiva precisam ser gemas de alta qualidade, não?
— Apenas se estivermos falando de magia defensiva.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios.
— Não há necessidade de nos limitarmos a ela.
Como ele pediu para pegar emprestada minha presilha, entreguei-a sem hesitar.
E foi assim que começou.
Aquele dia marcou o início de dez anos extraordinários para Alicia e para mim.
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