abril 01, 2026

Este julgamento é tirânico - Capítulo 00

Capítulo 00


— Arshela Altamirana! Declaro aqui o rompimento do nosso noivado! Minha nova noiva será Claire Valentine, que está aqui presente!

Foi com uma voz impecável que eu Julian, o Primeiro Príncipe fiz minha declaração.

E não apenas com uma voz impecável, mas também com uma expressão perfeita, diante de todos, na festa de formatura.

Arshela, recém-dispensada, levou a mão à boca, sem palavras.

Seu rosto estampava claramente: “Por quê?”, “Como assim?”, “Isso não pode ser verdade!”

Diante daquela expressão de choque, eu avancei sem hesitar.

— Arshela! Eu sei que foi você quem empurrou Claire da escada! Nunca imaginei que fosse capaz de algo tão vil!

Um murmúrio percorreu o salão.

Claire, que estava ali, havia caído da escadaria da academia meses antes, torcendo o tornozelo.
E havia testemunhas várias que afirmavam ter visto Arshela gritando algo enquanto a empurrava.

— I-isso é…!

— Não finja ignorância!

Cortei sua defesa com firmeza.

Tudo estava indo perfeitamente.
Além disso, quando mencionei o empurrão… eu vi claramente os olhos de Arshela vacilarem.

Não havia dúvida: ela tinha consciência do que fizera.

Arshela abaixou a cabeça. Seus ombros tremiam.

Após um breve silêncio, ela ergueu a voz:

— Eu… eu só reagi! Naquele dia, essa senhorita Claire tentou roubar minha carteira, então eu gritei “Ladra!” e a empurrei por reflexo!





— …Hã?

A resposta foi tão inesperada que não consegui nem rir.

Confusão tomou conta do salão.

— Que absurdo! Como ousa dizer isso?! Claire jamais faria algo assim!

— É verdade! Ela enfiou a mão no meu bolso tentando pegar minha carteira! Admito que exagerei… mas foi legítima defesa!

Arshela insistia desesperadamente.

— Eu gritei “Ladra!”! Muitas pessoas ouviram! Não foi?!

Uma testemunha levantou a mão:

— Eu ouvi! Ela gritou “Ladra!” enquanto empurrava Claire!

O salão entrou em alvoroço.

— Isso é um engano! Claire jamais faria isso! Não é, Claire?!

Olhei para ela e, naquele momento, perdi as palavras.

Seus lábios estavam pálidos.
Seu rosto, azul de nervoso.
Seus olhos, inquietos.

Era a expressão clara de alguém dizendo: “Fui eu.”

Soltei seu ombro.

— Isso… não pode ser…

Claire me olhou, desesperada, tentando negar apenas com o olhar.

— Claire… eu confiava em você… Nunca imaginei…

Recuo, atordoado.

— Diga a verdade… Você tentou… roubar?

— Espere, Alteza! Eu tenho um motivo!

— Eu só queria recuperar a foto dos meus pais que estava dentro daquela carteira!




A revelação caiu como uma bomba.

Claire explicou: havia perdido a carteira meses antes.
Recentemente, viu Arshela com ela.

Dentro havia uma foto de seus pais falecidos.

Olhei para Arshela.

Seu rosto estava tão pálido quanto o de Claire antes.

Culpada.

Sem dúvida.

— Arshela… você roubou a carteira de outra pessoa?

— Eu posso explicar…!

— Não há justificativa para isso!

— Eu… eu só queria…!

— Eu só queria ter uma foto da minha mãe…!



Silêncio absoluto.

Arshela revelou: era filha ilegítima.
Sua mãe biológica fora abandonada.

Ela mal se lembrava dela.

Mas ao ver aquela foto… reconheceu imediatamente.

Olhei entre as duas.

Semelhanças eram inegáveis.

— …Irmã?

Claire sussurrou.

O salão inteiro entrou em choque.




E como se não bastasse…

— Por que você não pediu a carteira de volta? — perguntei.

Claire empalideceu.

— Porque… Arshela já me agrediu antes…!

Novo choque.

Mas Arshela rebateu:

— Eu só tentei impedir que ela usasse magia negra perigosa!

Magia negra.

Proibida.

Claire confirmou… mas disse:

— Eu só queria encontrar minha irmã desaparecida…!

Silêncio.

Lágrimas.

Revelação.

Reconciliação.

Arshela correu e abraçou Claire.

— Você é minha única irmã! Nunca mais ficará sozinha!

Ambas choraram.

O salão inteiro chorou.

Menos eu.




— …Então… afinal… quem está errado?

Silêncio.

Então, uma voz:

— O príncipe Julian.

E o salão concordou.

— Ele não investigou.
— Foi precipitado.
— E ainda trocou de noiva…

— Ele traiu.

— …Hã?

De repente, todos me encaravam com desprezo.

As duas com raiva.

Sem saída…

Eu me ajoelhei.

Encostei a testa no chão.

— Me desculpem.



Assim terminou a festa de formatura:

Um príncipe se humilhou.
Duas irmãs se reencontraram.
E um noivado foi destruído.



◆ Epílogo

Pensando bem…

O mundo está cheio de situações assim.

Orgulho.
Mal-entendidos.
Falta de diálogo.

Tudo poderia ser resolvido com um simples:

“Desculpa.”

Mas as pessoas insistem em complicar.

Brigam.
Se ferem.
Às vezes… até se destroem.

Quando bastava dar um passo à frente.

E sorrir.



Se tem algo que posso dizer é:

Quando estiver errado, peça desculpas.

E…

Não rompa noivados por impulso.

Ou você pode acabar como eu:

Um príncipe que tentou condenar alguém…
E terminou fazendo uma reverência humilhante diante de todos.


— Primeiro Príncipe Julian

Nenhum comentário:

Postar um comentário