março 02, 2026

Reencarnei como a futura Vilã - Capítulo 00

Capítulo 00

“Anneliese. A partir de hoje, ele será seu irmão mais novo: Elbert. …No passado, fiquei em dívida com a mãe dele. De agora em diante, trate-o com carinho, como irmã.”

O rei, seu pai, dirigiu-se a Anneliese com a costumeira altivez e, em seguida, voltou-se ao garoto com voz suave:

“Esta será sua irmã mais velha, Anneliese. Cumprimente-a.”

Os cabelos dourados do menino estavam desgrenhados, e seus olhos azul-escuros pareciam vagos, desfocados. Certamente fora lavado e vestido com roupas finas antes de chegar ao castelo, mas ainda assim havia nele algo de encardido e sua expressão era a de alguém sem vida.

Elbert assim fora apresentado não disse palavra. Limitou-se a encarar Anneliese, em silêncio. O rei, contudo, sorriu.

“Está nervoso, não é?”

E deu-lhe uma palmada amistosa no ombro.

Diante daquela cena, a princesa Anneliese permanecia atônita.

(Elbert? Meu… irmão? …Ah.)

Algo estalou no fundo de sua mente. Como uma descarga elétrica.

(Eh? Descarga elétrica? O que é isso? Espere. Eu… eu sou…?)

“Primeiro, descanse. Depois, Anneliese, cuide da educação de Elbert… O-ora, o que houve? Anneliese? Anneliese?!”

O pai, que normalmente era frio com ela, agora elevava a voz, aflito.

Enquanto o mundo girava e sua consciência se dissipava, um pensamento lhe atravessou a mente:

(Este lugar… não é o mundo de O Rei do Selo Sagrado?!)

“Eu” já vivi, antes, em um país chamado Japão.

Trabalhava em um prédio comercial comum, cercado por construções anônimas. e minha vida se resumia entre o apartamento e o escritório. O emprego como funcionária administrativa não era particularmente penoso, mas tampouco empolgante.

Foi então que, certo dia, encontrei num sebo um romance intitulado O Rei do Selo Sagrado. A capa exibia um belo jovem de cabelos loiros e olhos azuis; estava pela metade do preço. Comprei por impulso e decidir lê-lo antes de dormir.

Era a história clássica do príncipe injustiçado Elbert, que, após anos de humilhação, se reerguia e derrotava o mal ao lado de companheiros leais. Personagens morriam aos montes, fossem aliados ou inimigos, e os eventos cruéis se sucediam sem piedade. Mais do que empolgação, a narrativa despertava dor diante do destino implacável do protagonista.

No fim, ele derrotava a rainha vilã e encerrava a história mas até ela possuía motivos que a haviam levado ao mal, o que tornava impossível odiá-la por completo.

Era um romance que ensinava que a justiça não cabe em uma única palavra.

…E, por alguma razão incompreensível, agora eu estava dentro daquele mundo.

Eu mantinha intactas as memórias de dezenove anos vivendo como a princesa Anneliese, do Reino de Trace. Mas, ao mesmo tempo, possuía também as lembranças de mais de vinte anos vividos em outro mundo, como outra pessoa.

…E então eu compreendi.

“Eu sou a rainha vilã que atormenta Elbert e acaba morta por ele!”

Atirei-me na cama e gritei no travesseiro. Como havia dispensado os criados, ninguém me repreenderia por tal comportamento.

Naquela manhã, meu pai me convocara. Já estranhara quando, sendo sempre tão distante, desejou tomar café comigo. Depois da refeição silenciosa, apresentou-me aquele garoto franzino como “meu irmão”. Foi nesse momento que minha mente explodiu e eu desmaiei.

Anneliese Trace era a antagonista final de O Rei do Selo Sagrado. Irmã adotiva de Elbert, passava a atormentá-lo assim que ele era acolhido no palácio. O rei o protegia, mas acabava morto por ela, que usurpava o trono.

Elbert escapava por pouco, vagava pelo mundo, reunia aliados e retornava para derrotar a tirana. Tornava-se rei, fundava uma nova dinastia e trazia prosperidade ao reino.

Em outras palavras: se nada mudasse, eu morreria. E morreria decapitada, sob os gritos do povo clamando: “Matem a rainha!”

“Não! Eu me recuso a ter a cabeça arrancada pelo protagonista!”

Mas… espere.

Elbert derrota a rainha porque ela o maltrata e governa mal.

Então… se eu simplesmente lhe entregar o trono?

Foi assim que, naquela noite, entrei nos aposentos do rei com uma faca na mão.

“Boa noite, Majestade. Faça-me rainha.”

O rei ergueu o tronco na cama, fitando-me com voz rouca:

“Do que está falando, Anneliese?”

Se Elbert precisava ser rei, alguém tinha de sair do caminho.

E eu sabia dos segredos dele.

Sabia que não possuía sangue real era filha da rainha com um amante, introduzido ali pelo próprio rei. Sabia que Elbert era, na verdade, filho legítimo do rei com a Santa. Sabia que sua idade fora alterada para esconder o adultério.

Diante de minhas revelações, o rei empalideceu.

No romance, ele enviaria assassinos contra Anneliese e acabaria morto por ela. Mas desta vez, sob ameaça mútua, optou por abdicar pacificamente.

Assim, tornei-me rainha.

Meu plano era simples: tornar-me uma soberana medíocre, fazer o povo preferir Elbert, e então abdicar antes que ele tivesse motivos para me matar.

Passei a maltratá-lo em público pequenas humilhações, comentários cruéis. Ao mesmo tempo, em segredo, ordenava ao jovem chanceler que cuidasse de sua educação, saúde e aliados.

Eu queria que ele crescesse forte. Que se tornasse amado.

Mas algo deu errado.

Quanto mais eu o provocava, mais sua afeição por mim parecia crescer.

Ele aceitava meus insultos com serenidade. Agradecia até mesmo por restos de comida. Enviava presentes perfeitos, exatamente do meu gosto.

Até que, certo dia, no campo de treinamento, enquanto eu o provocava, ele me chamou de bela. Disse que corava ao ser observado por mim.

Corei.

Tentei manter a pose de vilã e acabei tropeçando no vestido.

Ele me segurou nos braços.

E então declarou, ajoelhado, beijando minha mão:

“Eu nunca a vi como irmã. Eu a admiro. Amo-a.”

Os cavaleiros aplaudiram.

Desesperada, dei-lhe um tapa.

Mas, a partir dali, ele apenas intensificou sua devoção.

Descobriu que não tínhamos laços de sangue e ficou radiante.

Prometeu tornar-se rei e me tomar como rainha.

Três anos depois, abdiquei, alegando incapacidade para o peso da coroa.

Elbert foi coroado como o décimo rei de Trace.

No mesmo dia, anunciou nosso noivado.

O povo aprovou.

E, segundo dizem, a expressão da ex-rainha Anneliese firmemente abraçada pelo novo rei era a de alguém cuja alma havia deixado o corpo.

Casaram-se um ano depois.

Ela continuou ameaçando romper o noivado, depois o casamento.

Ele continuou chamando-a de “minha adorável esposa”.

Reinaram juntos por décadas, sem amantes. Tiveram dois príncipes e três princesas.

E viveram para grande frustração da ex-vilã felizes até o fim.


P: “Senhor chanceler, o senhor previu que isso aconteceria?”

Chanceler: “Desde o começo.”

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