março 19, 2026

A filha do duque ignora a profecia de ruína. E, já que está nisso, atropela também o noivo - Capítulo Único

Capítulo 00

A jovem duquesa Shirley MacLeod visitava o palácio real para encontrar seu noivo, o príncipe herdeiro Alex. No jardim de início de verão, em um gazebo situado em seu centro, os dois desfrutavam de um agradável momento de chá.

Esses encontros, realizados uma ou duas vezes por mês, eram, para Shirley que estava prestes a completar doze anos o momento mais aguardado de todos.

E, ainda assim, apesar de ser um tempo que deveria ser agradável, seu humor estava péssimo.

— Você aí. Venha até aqui…

Com uma voz serena demais para sua idade, chamou a criada que estava encarregada do serviço.

Seus cabelos negros, ondulados em cachos, e seus olhos verdes de forte determinação davam-lhe uma presença intimidadora, mesmo sendo ainda tão jovem.

A jovem criada, sem sequer ter sido repreendida ainda, já tremia como um pequeno animal acuado.

— Aconteceu algo, milady?

— “Aconteceu algo?”, diz você? Olhe para esta xícara.

Com a ponta de seus delicados dedos, Shirley apontou diretamente para a xícara de chá.
Havia ali uma pequena lasca.

— Você não está à altura do cargo de criada. Não acha melhor se retirar?

— M-Mas…! Eu não fui quem preparou isto…

Com os olhos marejados e os lábios trêmulos, a criada tentou se explicar.

Aquelas encarregadas de servir diretamente a realeza eram, em geral, de posição social elevada. Aquela jovem provavelmente era filha de nobres, enviada ao palácio como dama em treinamento.

Ela não havia lavado a xícara, nem preparado o ambiente apenas trouxera o chá. Era isso que queria dizer.

— A última pessoa a tocar deveria ter percebido. E se o príncipe herdeiro tivesse se ferido? Ainda diria o mesmo?

Para Shirley, aquilo não passava de uma observação lógica.

Mas as mãos da criada tremiam cada vez mais, e lágrimas caíam de seus grandes olhos.

Embora fosse Shirley quem falava, a criada voltou seu olhar para Alex, como se pedisse ajuda.

— Shirley. Como ninguém se feriu, não acha melhor deixarmos assim por hoje? Você pode se retirar e descansar. …Quando vejo uma mulher chorando, isso também me entristece.

Shirley não era boa em expressar suas emoções.

Mas isso não significava que não sentisse nada ao ver seu noivo sorrindo e confortando outra mulher.

Para ser honesta, sentia como se suas entranhas fervilhassem.

Talvez porque lhe parecesse que ele estava dando prioridade à criada em vez dela.

— Shirley? Por que está tão irritada?

Alex inclinou a cabeça, mais confuso do que repreensivo.

— Não estou irritada!

— Será ciúmes? Se for, fico feliz.

Ela lançou-lhe um olhar penetrante.

E, ao contrário do esperado, ele corou levemente.

Ela não compreendia aquele comportamento.

Ele era alguém tolerante com todos com tudo.

— Não é ciúmes.

Embora negasse, talvez fosse exatamente isso.

E, ao mesmo tempo, sentia também uma ponta de alegria.

Ele havia percebido a diferença sutil em seu comportamento algo que mais ninguém notava.

Para a criada, ela apenas apontara um erro.
Mas com Alex, ela estava, de fato, irritada.

E ele compreendia isso.

— Eu gosto de garotas com um pouco de personalidade forte. Mas, sabe, Shirley… você será a futura rainha. Talvez devesse tratar melhor aqueles abaixo de você. Especialmente porque… seu rosto pode ser um pouco… intimidante.

Ela suspirou profundamente.

Não se considerava alguém particularmente dura.
Apenas achava que era mal interpretada por parecer severa.

Ainda assim, ignorar completamente a opinião alheia não era adequado.

Então decidiu refletir.

— Alex, se alguém abrisse a janela enquanto você escrevia uma carta, e o papel quase voasse, você ficaria irritado?

— Não. Se eu segurasse a tempo e nada acontecesse, não veria problema.

— Entendo. Então… se um doce que você disse não gostar há um ano fosse servido novamente?

— Um ano? Não é bom ter preferências tão rígidas.

Comparada a ele, ela realmente parecia egoísta.

— O senhor é muito gentil. Mas não creio que eu consiga ser assim… O senhor passaria a me odiar?

— Claro que não! Na minha frente, pode se irritar o quanto quiser. Na verdade… gosto mais do seu rosto quando está brava.

— Mesmo?

— Sim. Se estiver insegura, prometo: sempre amarei você exatamente como é.

Ele estendeu o dedo mínimo.

Ela aproximou o seu, e os dois entrelaçaram os dedos.

Às vésperas de seu aniversário, Shirley recebeu de seu noivo uma promessa preciosa.




Shirley completou doze anos.

Após o grandioso baile de aniversário, enquanto relaxava em seus aposentos, recebeu um chamado de seu pai.

No escritório dele, estavam sua mãe, seu irmão mais velho cinco anos mais velho e um velho desconhecido.

— Shirley, este senhor é um grande profeta, muito comentado na capital.

Seu pai explicou com entusiasmo, mas, honestamente, Shirley achava aquilo suspeito.

Estava prestes a dizer que não tinha interesse, quando sua mãe, radiante, tomou a palavra antes.

— Como você será uma futura rainha, pensamos em pedir que ele preveja seu futuro.

— Exato! Seu futuro está ligado ao destino do reino! Como irmão, também quero saber!

Ela queria recusar.

Mas, vendo o entusiasmo dos três, não havia clima para chamar aquilo de fraude.

Resignada, sentou-se na cadeira preparada.

O velho, então, mergulhou a pena em tinta vermelha e começou a escrever enquanto emitia um grito estranho.

— Kieeeee! Eu vejo… vejo o futuro de Lady Shirley…

Com os olhos injetados e uma expressão quase possuído, ele rabiscou violentamente:

— A jovem duquesa Shirley MacLeod romperá sua relação com o príncipe herdeiro Alex durante seus anos na Academia Real.

— Isso parece improvável.

— O príncipe se apaixonará por uma jovem baronesa, modesta e gentil. Ao descobrir isso, Lady Shirley, tomada pelo ciúme, contratará agentes das sombras para assassiná-la.

— Isso eu não faria. …Se fosse o caso, a casa ducal eliminaria o inimigo de forma aberta.

— Servos e criados, ressentidos pelo tratamento severo, entregarão provas ao príncipe. Lady Shirley será condenada à fogueira, e sua família perderá o título e será exilada.

— Já que estamos nisso, poderia ao menos escrever o nome dessa baronesa? É só isso que um profeta consegue?

— I-Isso é tudo…

— Peço desculpas… Como é o futuro de vossa senhoria que estou vendo, não consigo identificar claramente pessoas que ainda não conhece…

O profeta suava frio.

Shirley alternava o olhar entre o papel e o rosto dele.
Era difícil confiar.

— Que horror! Shirley… nesse ritmo, nossa família será destruída!

— Ah, minha filha… como podemos salvá-la?

Sua mãe e irmão começaram a chorar.

De alguma forma, todos acreditavam.

E Shirley… acabou considerando a possibilidade.

— Peço desculpas, pai… por levar nossa família à ruína.

— Não! Ainda há tempo! Você tem bondade! Se tratar melhor os servos e agradar o príncipe, podemos evitar isso!

— Entendo… então, para mudar o destino, farei o máximo nos próximos seis anos.

Os três, emocionados, tentaram abraçá-la.

Ela escapou com elegância.

— Vou começar a planejar imediatamente. Com licença.



O plano

De volta ao quarto, encontrou sua criada de confiança, Anne.

Uma mulher de quarenta anos, que parecia ter pouco mais de vinte.

Após explicar tudo, Anne perguntou:

— E o que pretende fazer?

— Se o futuro está decidido… então eu o mudarei.

— A senhorita realmente acredita nisso?

— Não exatamente. Mas, se agir assim, meu pai ficará mais tranquilo.

Para Shirley, o importante não era a veracidade da profecia.

E sim que ela fazia sentido.

Ela analisou:

1. Sua personalidade → problema


2. Rival amorosa → surge na academia


3. Traição dos servos



— Então é simples. Se eu não for para a academia, nada disso acontece.

— Mas outras garotas ainda irão…

— Então criamos outro lugar para estudarem.

Anne arregalou os olhos.

— Uma academia feminina…?

— Exato. Muitos nobres se preocupariam com a moral. Apoiarão.

Depois:

— Quanto aos servos… se todos forem do nível de você, não precisarei repreender ninguém.

— Então… investir em treinamento e salário e benefícios.?

— Exatamente! Se forem excelentes, não me odiarão!

Ela riu com elegância.

— Ohohohoho!

— Como esperado de minha senhora.

O plano era perfeito.



Seis anos depois

O plano foi um sucesso.

A família tornou-se pioneira na educação feminina.
Os servos elite nacional.

E o futuro… evitado.



— Lady Shirley, o príncipe herdeiro chegou.

Ambos tinham dezoito anos.

— Alteza.

— Prefiro que me chame pelo nome…

— E quanto à nossa promessa?

Ele se ajoelhou.

— Me perdoe!

— Não era para tirar nota máxima?

— Eu fiquei em primeiro…

Ela o encarou.

— Errou de propósito, não foi?

Silêncio.

Ela sorriu.

— Queria ser repreendido.

— S-sim…

Ela pisou no rosto dele.

— Boca mentirosa…

Ele… parecia feliz.

— Ohohoho! Fiquei mais gentil agora, então vou atender seu desejo.

Ela pressionou mais.

Assim, Shirley esmagou a profecia…

E também seu noivo.

Seu mundo continuava perfeito.

Fim

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